O Sacerdócio Wiccaniano

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Todos nós sabemos que só pertence realmente à Wicca quem se inicia ( seja em uma Tradição, seja pela auto-iniciação), ou seja,. temos uma religião iniciática em que não há seguidores – todo wiccaniano é Sacerdote ou Sacerdotisa da Deusa Tríplice e seu Consorte.

Esse é um dos mais importantes diferenciais da Wicca em relação a caminhos mágicos não religiosos. O sacerdócio obrigatório implica que seja necessário à pessoa buscar em si, antes de pensar em trilhar este caminho, a veracidade de sua vocação sacerdotal. Costumo dizer que, na prática, nenhuma diferença vejo na vocação sacerdotal de um Wiccaniano da vocação sacerdotal para qualquer outra religião. Embora o modo de exercer nosso Sacerdócio da Terra não implique renúncias a prazeres, celibatos ou votos de pobreza ou abstinência, temos em comum com sacerdotes de outras religiões o seguinte: nossa alma anseia pelo contato íntimo e direto com a Divindade Criadora e nos oferecemos, voluntariamente, para realizar, em concreto, esse contato no mundo, em nossas vidas diárias.

Muitos livros tratam do período de preparação para a iniciação, muitos enfatizam o que deve um neófito aprender e conhecer no período de um ano e um dia mínimo para nela chegar. O que se deixa de comentar é o seguinte: o que faz uma bruxa DEPOIS da iniciação? Como é o exercício do Sacerdócio Wiccaniano?

Para responder essa pergunta, devemos compreender uma face da Deusa que é Aquela que Dá Poderes. Essa face da Deusa significa a Deusa agindo diretamente no mundo. Seja como a Curadora, seja como Consoladora, seja como Sábia, essa face da Deusa é muito conhecida das pessoas não tanto em tese, mas nas vivências diárias. É Ela quem nos concede nossos dons e quem, quando estamos em estreita comunhão com o Elemento Espírito, acende em nós a chama de partilhar esses dons. Creio que todos, mesmo os leigos, podem entender o que digo: quando você ouve uma bela música, quando lê um lindo poema ou vê um por do sol de intensa beleza, acende-se em seu coração um desejo de partilhar- você passa a querer dividir com os outros a beleza que descobriu.

Assim é o caminho Wiccaniano, essa mesma é a essência do sacerdócio: levar para a vida de outras pessoas a beleza que você descobriu ao perceber que a Vida é mágica, que Tudo é sagrado, que Ela é a Vida em si. A consciência de que tudo que existe em sua vida é sua responsabilidade e pode ser moldado por sua vontade. Descobrir que todas as respostas que você procura estão dentro de você mesmo. Obviamente isso não se faz por meio de pregações religiosas, nem por proselitismo. Isso se faz vivendo o dia a dia normal que todo Sacerdote ou Sacerdotisa Wiccaniano tem. Exercer o sacerdócio da Deusa Tríplice é levar encanto e magia a todos, e tornar as pessoas mais despertas , mais conscientes e mais livres, independentemente de que religião elas mesmas professem.

Ser um Sacerdote ou Sacerdotisa dos Antigos significa viver em alegria, celebrar a natureza e realizar seus dons no mundo. Seja nas pequenas coisas, como abençoar a pessoa que serviu a você um café no escritório ou nas coisas mais complexas, como engajar-se em movimentos ambientalistas, seja no usar seus dons para curar alguém ou um animal ferido, seja celebrando rituais públicos ou particulares, seja dando entrevistas na TV ou respondendo a um estranho sobre sua religião – tudo isso são formas possíveis de realização do caminho sacerdotal. Talvez você não deseje ser um@ curador@, ou talvez nunca sinta o impulso de ensinar ou falar sobre a Arte, mas se você descobrir o que a Deusa espera de você e realizá-lo, exercendo seus dons, você será um@ verdadeir@ Sacerdotisa ou Sacerdote Wiccanian@.

Um cuidado muito grande que se deve ter é com a ilusão de estar seguindo um caminho sacerdotal. Ouço muita gente dizer: “Eu vivo consciente da natureza, vejo a Deusa em tudo, e isso basta para me fazer wiccaniana.” Tolice: um caminho sacerdotal não é um fingimento, uma fantasia, tampouco é simples como “ver a Deusa em tudo”. Implica estudo, dedicação e vivência. Implica autoconhecimento e autotransformação.

Como vai seu Sacerdócio? Como você tem utilizado no mundo os Poderes Dela? Muito mais do que se preocupar com a forma da iniciação, esta deve ser a preocupação de todos nós wiccanianos: a qualidade do exercício do Sacerdócio.

Aos novatos deixo a pergunta: você tem real vocação sacerdotal? Como crê irá exercer o sacerdócio da Deusa e Seu Consorte em concreto na sua vida?

Somente Aquela Que Dá Poderes nos transforma em reais Sacerdotisas e Sacerdotes, fazendo com que nossa prática da Wicca deixe de ser algo formal e livresco, concretizando de maneira ativa os preceitos de nossa religião em nossas vidas, trazendo a magia a atuar no mundo.


André Wiccano

Autosabotagens no Culto à Deusa Negra

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A Deusa que cultuamos na Wicca é conhecida como Deusa Tríplice por seus três aspectos – Donzela, Mãe e Anciã.  Quando comparados à Lua, esses três aspectos dizem respeito a sua porção luminosa: a Lua Crescente, Cheia e Minguante, respectivamente. Porém, há um quarto aspecto da Deusa, menos conhecido, que chamamos de “Deusa Negra”, equivalente ao momento do céu onde não há Lua visível. Às vezes a Deusa Negra é identificada como uma especialização da Anciã, mas ao olharmos para as muitas mitologias pré-cristãs onde a Deusa se revelou, encontraremos Donzelas Negras e Mães Negras também. Isso nos faz entender que a Deusa Negra abarca a totalidade da própria Deusa em seus três aspectos.

Mas quem é a Deusa Negra? Ela é a Senhora da Sombra Coletiva dos povos e da própria humanidade. É a Deusa que trata de temas que nos são desagradáveis, que preferimos evitar porque nos causam dor e sofrimento: Ela é a senhora da morte, do adoecimento e de todas as pragas, da putrefação, da sexualidade, da violência e agressividade, da vingança, ódio, inveja, ciúme. É a Senhora dos Fantasmas, da Noite Escura da Alma, do luto. A Deusa Negra é o choro da mãe que assiste a morte de um filho. Conhecemos sua face quando vemos nossos entes queridos serem tomados por doenças graves, com seus corpos deformados e sofrerem até a morte. É a Deusa que vive em nossos traumas mais profundos, em nosso desespero. Sua voz se faz ouvir em nossos choros soluçantes, quando acreditamos não haver mais esperança, quando a dor em nosso peito é maior que qualquer outra coisa.  Ela é o lampejo de libertação que brilha nos olhos de um suicida antes de seu ato final. Ela é cada criança que morre de fome. Você já se encontrou com a Deusa Negra? Ela nunca deixa dúvidas de sua presença.

Desse modo, chamamos pelo título de “Deusas Negras” todas aquelas deusas cuja mitologia central fala de um desses aspectos. São exemplos Deusas Negras largamente conhecidas hoje dia A Morrighan, Cailleach, Hécate, Lilith, Kali, Ceridwen. É claro, todas as divindades possuem um aspecto sombrio que nos leva a conhecer a Deusa Negra, mas aqui falamos especificamente de divindades que ligam-se de forma maior a esses temas.

Já deu para perceber que Deusas Negras não são divindades que trazem aspectos muito fáceis de lidar, né? Mas as Deusas Negras são também fonte de muito amor, pois elas também são as Confortadoras – nos ensinam a compreender esses elementos como parte do Corpo da Deusa, que é a própria natureza, como elementos genuinamente sagrados para além de nossas impressões de bem ou mal. Mas isso não torna os encontros que temos em nossas vidas com a Deusa Negra mais fáceis ou menos dolorosos.

O culto a Deusa Negra é um culto de integração, pois nos leva ao reconhecimento de nossas próprias parcelas sombrias. Ele é fundamental ao nosso trabalho de autoconhecimento, pois além de nos revelar aspectos desagradáveis de nós mesmos, nos proporciona cura profunda. É por isso que alguns dizem que a Wicca é um trabalho de lapidação pessoal para o encontro com a Alma – ele nos conduz ao nosso verdadeiro Self, mas esse é um caminho doloroso, que dá muito trabalho e que nos faz pensar em desistir algumas vezes. Eu diria que um dos principais elementos que distinguem o sacerdócio Wiccaniano de outras religiões pagãs é a busca pelo encontro com a Deusa Negra para que sejamos por ele transformados. Não tentamos apazigua-la e fugir Dela quando se apresenta; não criamos tabus sobre o seu culto, amedrontados pela pronúncia de seus nomes. Nós nos erguemos e a encaramos de frente, pois a Deusa Negra é a mesma Donzela que dança na primavera, a Mãe abundante que nos nutre e nos abençoa, a Anciã sábia que compartilha seus dons e sabedoria. Sem a Deusa Negra não há Iniciação. É Ela quem nos desafia, nos despe e nos conduz através dos portais iniciáticos numa experiência de morte e renascimento. É impossível encontrar a verdadeira Iniciação sem encontrar a Deusa Negra constantemente. É impossível encontrá-la constantemente sem sofrimento. Ela é a Deusa que empurra nossos falsos limites para nos lembrar que sempre podemos ser mais. Ela te faz olhar o que você não quer ver. Te faz escutar as palavras que mais machucam. Você já encontrou a Deusa Negra?

É justamente por ser aquela que nos traz as lições mais dolorosas e difíceis que precisamos tomar alguns cuidados para “vigiar” a qualidade de nossos encontros com a Deusa Negra. É muito fácil fugir, é muito fácil criar mil armadilhas e se desvencilhar do verdadeiro confronto. Esse é um dos motivos pelo qual a auto-iniciação é tão confrontada – é possível que uma pessoa solitária consiga verdadeiramente encarar a Deusa Negra de frente para aprender as suas lições? Acredito que sim, mas isso requer alguns cuidados:

Se você tem um culto regular a alguma divindade e ela apenas se apresenta a você como “Deusa Fofinha”, carinhosa, amorosa, sua melhor amiga, tem algo errado. O culto às divindades na Wicca, principalmente às chamadas Deusas Negras (que enfatizam esses aspectos sombrios), conduzirão inevitavelmente a esses encontros. Se você ainda não os teve, cabe meditar: “de que eu estou fugindo?”, “quais aspectos dessa divindade me confrontam, me trazem medo ou repulsa?”. Cabe às vezes uma “abordagem ativa” à Deusa Negra – ao invés de esperar que ela se manifeste, vá atrás dela para explorar algum tema em sua vida. Você é uma pessoa muito pacífica, anti-violência? Então talvez a agressividade e a destrutividade sejam temas que Ela irá trazer a você. Você é uma pessoa que tem medo da sexualidade? Você tem nojo de órgãos sexuais masculinos ou femininos? Talvez a Deusa Negra tenha algo a lhe ensinar sobre isso. As divindades chamadas de Deusas Negras são ótimas professoras, curadoras e regeneradoras, são também fontes de amor, mas se você nunca teve um encontro desconfortável, difícil, com suas divindades de culto, talvez seja hora de se perguntar o porquê disso. Medite com a Deusa e deixe que Ela te conduza. Mas não se engane – nossas tentativas de controlar a Deusa são sempre falhas. Por mais que fujamos, a Deusa Negra nunca deixará de se revelar em nossas vidas, de muitas maneiras. Abra os olhos e perceba como Ela atua em sua vida a todo instante.

Outra possível fuga é o extremo oposto: se seu culto é muito “trevoso”, sombrio e sangrento, sem reconhecer aspectos luminosos dessa divindade, é provável que tenha algo errado. Se você acredita que Lilith é uma vampira devoradora de homens e sedenta por sangue, se você acredita que Hécate é uma besta das encruzilhadas pronta para devorar almas despreparadas que a invocam, pode ser que tenha alguma distorção em seu culto e você também esteja fugindo de um confronto com a Deusa Negra. Se esse é o caso, podemos pensar em duas coisas diferentes: a primeira é se perguntar o porquê esse aspecto tão destrutivo te atrai tanto e toma grande parte do seu culto. É claro que pessoas diferentes se sentirão chamadas a cultuar divindades diferentes, mas ainda assim somos todos seres humanos que precisam de saúde, amor, prosperidade, alegria, prazer. A Wicca é uma religião de totalidade, expressamos também a porção luminosa da Deusa. Então porque é que somos atraídos apenas pelos aspectos mais sombrios das Divindades? O que há para temer em outros aspectos da Deusa? Outro ponto que precisamos considerar é: quando nos envolvemos em cultos exageradamente sombrios, que chocam outras pessoas, que as fazem ter medo de nós e de nossas práticas, não estamos na verdade nos apegando a sensação de controle? Criamos uma história para acreditarmos sermos íntimos da Deusa Negra, mas na verdade nunca a conhecemos verdadeiramente – temos, mais uma vez, medo do confronto.

Qual é o ponto, então? Como fugir de nossas autosabotagens no culto à Deusa Negra e consequentemente em nosso desenvolvimento sacerdotal? Um dos indicadores é moderação. Excessos podem ser indicadores que nos chamam a meditar e confrontarmo-nos. Tal qual a Roda da Fortuna do Tarot, nossa vida gira. A lição da Deusa é a lição dos ciclos – se você está por muito tempo na mesma energia, talvez seja hora de uma autoavaliação mais profunda. Um método que funciona bem para nos aproximarmos da Deusa Negra é a celebração do próprio ciclo lunar – celebramos a Donzela no período de crescimento lunar (da lua nova até a véspera da noite de lua cheia), a Deusa Mãe em nossos esbats de Plenilúnio (que dura apenas um dia), a Anciã durante todo o minguar e desaparecer da Lua, e finalmente a Deusa Negra no tempo de escuridão, antes do ciclo recomeçar. Na noite da Lua Negra, podemos nos abrir para escuta-la e deixar que Ela nos toque e nos transforme.

A Deusa Negra é a Senhora do Renascimento e dos Portais. Ela é sim a Desafiadora, Senhora dos Desconfortos, mas também é aquela que nos conduz em direção à liberdade. Ao encontrá-la, devemos ter a certeza que a luz de um novo dia surge após o período de maior escuridão. Ela, e apenas Ela, é capaz de nos tornar reais sacerdotes e sacerdotisas da Deusa, pois Ela nos afia enquanto instrumentos, nos forja, nos leva além de nossos limites. E justamente esse é seu maior desafio: você é capaz de amá-la, mesmo de frente para sua face mais terrível?

Leo Fortius Dianus

Leo é iniciado da Tradição Diânica do Brasil e tem um culto especial voltado a Afrodite. Tem 23 anos e é formado em Psicologia. Autor do blog Androtheosis, dedica parte de seu sacerdócio ao estudo e trabalho com o Sagrado Masculino sob uma perspectiva diânica, buscando a cura e integração do homem como sacerdote da Deusa.

Templo da Deusa

Cultuando a Deusa Negra

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Ao entrar em contato com a Wicca, nos deparamos com uma Deusa de três facetas associada ao ciclo lunar: enquanto a Lua cresce, projetando sua energia para o mundo, a Deusa é a Donzela que corre livre, independente, sem amarras, buscando conhecer e viver aquilo que o mundo a oferece. Quando a luz da Lua chega ao seu ápice, também chega a jornada da Donzela, que torna-se a Mãe – ela cria no mundo, nutre e sustenta, provê de si mesma para assegurar a vida; então a luz da Lua começa a minguar e mergulhar em dentro de si, assim como o faz a Deusa, que agora é a Anciã – sua jornada é para dentro, para o fundo de si mesma, rumo ao auto-conhecimento, vivendo seu mundo interno. E, este processo de mergulho em si chega ao único destino possível: a morte – finalmente, a luz da Lua desaparece, para voltar depois como Lua Nova, recomeçando o ciclo. Porém, ainda existe um quarto aspecto da Deusa, menos discutido e compreendido: a Deusa Negra.

Enquanto as três faces da Deusa se associam à luz da Lua, àquilo que pode ser visto, a Deusa Negra está ligada ao oposto – à escuridão. Em um primeiro momento, podemos ver a Deusa Negra como uma extensão da Anciã, ligada à Morte e a destruição. Ela é a Ceifeira, que tira a vida, a promessa da morte, e a certeza de que ela chegará. Enquanto a Anciã é a Deusa do Auto-Conhecimento, a Deusa Negra é a transformação que vem através dele, e o reflexo que o mostra.

Na escuridão fica aquilo que não pode ser visto, portanto, a Deusa Negra é tudo aquilo que não pode ser mostrado, o que fica velado. Ela também já foi chamada de Mãe Terrível, Tentadora, Sedutora, Fúria, Assassina. A Deusa Negra é a guerreira sedenta por sangue, a mãe que aborta, a meretriz, o último sopro, a pausa entre cada segundo, o ar que nos falta entre cada respiração. Sua morada está em todos os aspectos de nós mesmos que não nos agrada ou que a sociedade categoriza como errados. Violência, ódio, medo, fraqueza, rancor – todos os “monstros” que precisamos conter, mas que ainda assim são parte essencial de nosso ser, não desaparecem, simplesmente, mas constituem uma parte da nossa psique chamada de “Sombra”. A Deusa Negra pode ser vista em grandes momentos da nossa história: guerras, escravidão, Inquisição, nazismo… Esses são alguns exemplos onde a Sombra coletiva da sociedade se manifestou. Tudo aquilo que não podia ser visto como parte do Eu foi projetado no outro e atacado. O próprio diabo cristão é um exemplo disso. Mas a Deusa Negra vem para nos ensinar que não existe “o mal no outro”, não existe bode expiatório, não existe a quem culpar. Ela nos conscientiza de que temos aspectos agradáveis e desagradáveis, e que todos são importantes para sermos quem somos. E mais: somos responsáveis por quem somos, pois escolhemos ser quem somos.

A Deusa Negra é aquela que levanta o espelho, que não nos deixa ignorar aquilo que não queremos ver. Ela nos convida a caminhar pelas cavernas escuras de nosso ser e conhecer as criaturas que ali habitam, e através do encontro com nossa totalidade nos descobrimos os próprios Deuses, pois entendemos a total sacralidade de nosso ser. Dessa forma, integramos os aspectos sombrios de nós mesmos de forma a termos uma vida mais equilibrada e consciente, evitando manifestações terríveis da Sombra, como as descritas anteriormente. Ela é a transformação da jornada.

Mas a Deusa Negra não é só dor. Aqueles que realmente a conhecem, sabem que Ela é também a Mãe. Ela nos convida a ousar caminhar pelos caminhos tortuosos de nós mesmos e conhecer o que se esconde ali, mas em troca Ela nos oferece a cura e o poder. Ao vivenciarmos aquilo que negamos em nós mesmos somos curados de velhas feridas, dos muros que criamos dentro de nós, de dores passadas e presentes, que infligimos em nós mesmos por culpa e medo. A Deusa Negra nos permite recuperar o poder pessoal que a sociedade nos fez abdicar desde pequenos junto com a integridade de nosso ser. Com a coragem de olhar no espelho, abandonamos velhões padrões, nos transformamos, descobrimos o universo que existe dentro de nosso ser; morremos para uma velha vida e renascemos para uma vida nova, permeada de consciência – e é aí que encontramos outro aspecto da Deusa Negra – A Iniciadora, que nos conduz pelos portais.

Leo Fortius Dianus

Leo é iniciado da Tradição Diânica do Brasil e tem um culto especial voltado a Afrodite. Tem 23 anos e é formado em Psicologia. Autor do blog Androtheosis, dedica parte de seu sacerdócio ao estudo e trabalho com o Sagrado Masculino sob uma perspectiva diânica, buscando a cura e integração do homem como sacerdote da Deusa.

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Deuses de Tabela – Um Erro comum…


Desde sempre existe uma onda que parece vigorar nos estudos inciais que é a ideia de “Deuses tabelados”, acredito que está mais do que na hora de nós como orientadores mudarmos esse conceito auxiliando os neófitos a identificarem a dividade além de uma ou outra qualidade. Falar sobre esse tema é complicado e um tanto quanto polemico, pois quando digo Deuses tabelados eu falo sobre aquela fórmula com qual estamos acostumados a nos orientar, tal como acontece com as ervas, cores, pedras e incensos, conhecendo uma ou duas características desta ou aquela divindade.

Um dos sérios problemas nessa armadilha é que alguns sacerdotes não auxiliam estes neófitos a viver esse contato, pois eles também caíram neste ciclo vicioso e sendo assim continuam propagando essa metodologia e forma de vivenciar o sagrado.

Outro empecilho que barra os neófitos a ter esse contato é a falta de informação sobre a busca da conexão com a divindade, vivenciar outras formas e faces.

Este erro comum é a velha caixinha que te prende em conceitos velhos que precisam ser quebrados, um pagão que vivência a Deusa na forma de tabelinha acessa apenas uma pequena parcela da vastidão que é a divindade em si, perde-se a essência de se conhecer através da divindade, pois somos parte deles. Perde-se a totalidade da própria Terra, ou pior, do nosso Universo todo.
Viver os Deuses de tabela é quase como viver com antolhos que façam com que você enxergue apenas o que está a sua frente, ou seja, ver a divindade de uma forma mais limitada do que já vista e por consequência não compreender a imanência da Deusa.

Nossa obrigação como Orientadores é auxiliar os neófitos que nos procuram a vivenciar o contato direto com a divindade e encorajar os solitários a sentir a divindade como um todo. No meu próximo texto falarei sobre o contato direto com a divindade e sobre como é conviver dia após dia com a imanência.

Kalevi Silvanus
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As faces do Deus Cornífero

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O Deus realmente é deixado de lado muitas vezes nos cultos pagãos, como se a energia da Deusa pedisse essa dedicação exclusiva. Isto é verdade em parte, porque não é possível cultuar o Deus adequadamente enquanto não mergulharmos na Deusa e nos despirmos do Deus do patriarcado.
Quando no curso de nosso caminho – e isso demora até anos – está na hora do Deus voltar, a própria Deusa nos mostra seu Filho, Consorte, Defensor, Ancião.

Falando rapidamente: o Deus Jovem é, antes de tudo, a Criança da promessa, a semente do sol no meio da escuridão. Depois, é o Garoto do Pólen, o fertilizador em sua face mais juvenil, e traz a energia da alegria de viver, o poder de se maravilhar ante as descobertas da vida, é o experimentador, a face mais sorridente do sol matinal.

Dai surge o Deus Azul do Amor, o rapaz que cresceu e chegou na adolescência e desabrocha em beleza e masculinidade, é o Jovem Deus da Primavera, percorre as Florestas e acorda a natureza.
Ele é o Apaixonado, aquele que primeiro busca a Deusa como a Donzela e propicia o encontro… Ele é o Deus da sedução ainda inocente, que não conhece os mistérios da Senhora ainda… ele é toda possibilidade.

Depois ele é o Galhudo e o Green Man… O Deus é o macho na sua plenitude, O Senhor dos Chifres que desbancou o gamo-rei anterior, ele é força e poder, músculos e vitalidade, ele cheira a sexo e promessas. Ele é o Grande Amante, atraído irresistivelmente pela Senhora ele é o Provedor, o Sustentador, o Senhor Defensor.

Ele é o Senhor das Coisas Selvagens, o Deus da Dança da Vida, O Falo Ereto, O Fertilizador.
Como Green Man ele também é o Senhor da Terra e sua abundância, o parceiro da Senhora dos Grãos. O Senhor dos Brotos, aquele que cuida dos frutos e os distribui pela terra.

Mas o Deus é também O Trapaceiro, o Senhor da Embriaguez, o Desafiador e o Ancião da Justiça. Ele nos faz seguir um caminho e nos perdemos pra conhecer o pânico de Pan… ele nos deixa loucos como Dioniso ou perdidos nos devaneios de Netuno… ele é o Desafiador, seja nos duelos, seja na guerra, na luta pela sobrevivência… ele é caprichoso e insidioso, ele nos engana, nos deixa desesperados e sorri – porque esse é seu papel; estimular o novo, mostrar que nosso desespero é inútil e só nos escraviza…

Como a Deusa, Ele está na fome e no fim da fome, na vida e na doença terminal, na luz e na sombra, no que é bom para você e no que é mau… A Deusa nunca está só, ela tem sua contraparte masculina e, no entanto, Ele só existe por amor a Ela… alias, todos nós somos fruto dessa dança de amor.
O Deus é o Ancião sábio, o distribuidor da Justiça, seja a que se impõe com sabedoria ou raios… Ele conhece os segredos dos oráculos, mas sabe que são Dela… ele é o repositório do conhecimento, mas a sabedoria é Dela… ele lê os sinais da natureza, mas sabe que quem os escreve é Ela. E o velho sábio vai murchando e se transforma no Senhor da Morte… ele que é o Senhor de Dois Mundos, pois no ventre dela, de volta, ele vive sua morte e a própria ressurreição. Mistério e segredo, morte e retorno, Ele é o que atravessa os portais dos quais Ela é a Senhora.

Ele, o Caçador, que também faz o papel de Ceifador… Ele que ronda o leito dos moribundos e dança a dança da morte. O Senhor dos esqueletos.
Ele que na dança da morte retoma o brilho do sol e sua face negra se ilumina, em uma explosão impossível de conter, e Lugh nasce outra vez…
Ele que é pai, filho, bebê iluminado, amante selvagem, sábio educador… ele, o Deus que se revela apenas pela Deusa.

Mavesper Cy Ceridwen

Sou bruxa e sacerdotisa wiccaniana há mais de 22 anos, militante em defesa do Estado laico e direitos humanos. Terapeuta de cristais, taróloga, teáloga, terapeuta xamânica. Amo cães,especialmente poodles e pomeranians. Viciadíssima em seriados e , me aventurando na gastronomia.

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Auto-iniciação: um passo à frente das polêmicas

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Há mais de vinte anos atrás, estava eu no começo do Caminho da Deusa e estudava sobre a questão da validade ou não da auto-iniciação, tema que sempre gerou e ainda gera conflitos enormes no mundo todo. O que vemos nas recentes discussões da internet do Brasil, poderemos encontrar reproduzido em qualquer parte do mundo: radicais de ambos os lados, muita gente que faz disso motivo de discriminação e das famosas witch wars.

Quando lia sobre o tema um dia no Witchvox ( www.witchvox.com) me deparei com um texto de Ellen Cannon Reed, em que ela dizia já na década de 90 que era hora de parar com essas discussões discriminatórias e que a obrigação dos iniciados de covens e tradições era ORIENTAR e AJUDAR os que caminhavam na estrada da auto-iniciação, discutindo-se a sério, pois, PARÂMETROS PARA A AUTO-INICIAÇÃO.

Esse texto da Ellen me fez pensar durante alguns anos, e eu nunca vi se essa discussão teve prosseguimento no Witchvox. Mas aquilo ficou na minha cabeça.
Em 2001, quando eu já era além de auto-iniciada, líder de um coven há alguns anos, e depois fui iniciada em minha primeira tradição formal, escrevi um texto simples na lista de discussão do “Templo da Deusa” elencando o que se poderia chamar “Parâmetros para Auto-Iniciação”.

Não consegui encontrar meu texto originário, embora seja facílimo achá-lo ligeiramente modificado em meia dúzia de sites, e até livros, que o copiaram descaradamente. Mas isso não vem ao caso, o que importa é que hoje resolvi reescrevê-lo e talvez, com maior experiência e vivência, hoje eu produza um texto mais útil a todos.

Partindo-se do pressuposto que o ritual de iniciação em si não confere poderes ou transformações que a Deusa e o Deus já não tenham posto à disposição de uma determinada pessoa, e sabendo-se que a cerimônia iniciática é um rito de passagem, um marco de transformação, o que importa é saber COMO deve ser alguém para que legitimamente possa se arvorar em iniciado.

Essa análise nos covens tradicionais é feita pelo Iniciador. Quando o caminhante é solitário, tem que ser feita por ele mesmo.
Afinal, que diabos de diferença há entre o modo de ser de um iniciado em wicca e um não iniciado? Que saberes, que habilidades, que conhecimento se exige para avaliar se alguém pode legitimamente se iniciar em coven ou se auto-iniciar?
Vou elencar alguns pontos básicos de coisas que precisam ser aprendidas e sabidas, ou modificadas, para que alguém possa se iniciar, ou se auto-iniciar. Como vocês vão perceber, o conteúdo do aprendizado deve ser o mesmo.

PARÂMETROS PARA AVALIAÇÃO DE CANDIDATO À INICIAÇÃO
  1. CONHECIMENTO RACIONAL
    • O que é Wicca e Bruxaria e a diferença de outros caminhos mágicos e outras formas de neopaganismo.
    • Definição de Wicca e variações possíveis dentro da religião – conteúdo mínimo para caracterizar um prática como wiccaniana. Dogmas wiccanianos
    • História da Bruxaria
    • Mitologia dos diversos panteões pagãos
    • Conhecimento básico para magia natural: ervas, cores, pedras, sons, perfumes, incensos, velas e seu uso mágico.
    • Personalidades pagãs e sua contribuição para a bruxaria.
    • Conhecimento da fauna, flora e minerais de sua região. 
  2. TÉCNICAS MAGICAS
    • Estados alterados de consciência. Diversas formas de atingi-los.
    • Respiração, meditação.
    • Magia com os 4 elementos
    • Composição do Eu Mágico ( nome, templo astral, aliados etc)
    • Treinamento em Visão, transferência de consciência,  telepatia , sonhos lúcidos e outros fenômenos paranormais (cada uma dessas coisas deve ser compreendia para buscar seus próprios dons, ou seja, quais as modalidades em que você tem mais aptidão natural).
    • Mudança de forma (shapeshiting) e glamour.
    • Ataque e defesa mágica, criação de baterias, escudos, guardiões e seres magicamente criados.
    • Técnicas de cura, limpeza de ambientes, conhecimento da natureza em sua utilização mágica.
    • Horários e locais de poder, determinações mágicas.
    • Prática frequente de algum oráculo.
  3. RITUALÍSTICA
    • Conhecer toda a estrutura do círculo mágico e do ritual wiccaniano, bem como o papel dos Antigos e contatá-los.
    • Saber elaborar sabbats e esbats, com todas as características e compreender seu significado na terra em que você vive.
    • Conexão e trabalho com Deusas e Deuses e aliados mágicos.
    • Uso dos instrumentos e percepção de sua função simbólica.
    • Feitiços – tipos e variações possíveis.
  4. AUTO –CONHECIMENTO
    • Conhecer seu corpo e seu funcionamento de acordo com os ciclos da Lua e do Sol.
    • Percepção dos Elementos no corpo.
    • Pesquisa e conexão com ancestrais, compreendendo seu papel no mundo como herdeiro dos dons deles.
    • Profunda capacidade de auto-transformação, visando continuo equilíbrio e busca de liberdade, compreendendo sua estrutura psicológica, condicionamentos, e libertando-se de comportamentos impostos. Aquisição de capacidade de compreender todos os seus processos emocionais e harmonizar-se.
    • Compreensão que o processo de auto-conhecimento é a  base da formação do elo com os Deuses, porque conhecer a si mesmo é conhecer os Deuses, que são o Todo Universal.
  5. CONEXÃO, ÉTICA E COMPROMISSO
    • Aprender a escutar os Deuses e deixar que eles conduzam sua vida.
    • Desenvolver a compaixão pelo Todo, valorizando a diversidade sem nenhum tipo de preconceito, sendo capaz de servir em nome dos Deuses, da maneira como você compreender esse serviço, o que muda ao longo da vida sacerdotal.
    • Honrar todos os seus compromissos assumidos com os Deuses ou em nome e testemunho deles.
    • Seguir os lineamentos éticos básicos da Wicca, compreendendo como funciona o retorno tríplice.
    • Perceber como os Deuses usam você como instrumento Deles no mundo, agindo como um Desperto, ou seja, alguém, que compreende o que faz e porque faz em nome dos Antigos.
    • Resolver fazer seu COMPROMISSO INICIÁTICO (declarar aos Deuses que os ama e deseja entregar sua vida a eles para ser Seu instrumento consciente no mundo) SABENDO QUE ELE MUDARÁ SUA VIDA PARA SEMPRE, e que desse compromisso não se tira férias, folga, nem se desiste. Ele é uma vocação e uma escolha de vida.
Bom com toda essa lista de afazeres e aprendizado, além da parte imensamente difícil que é o item da autotransformação, dá para perceber que o que eu considero um auto-iniciado de verdade está muito longe das pessoas que fazem um ritual de meia hora achado num site, ou se “iniciam” às centenas em encontros de anime ou rpg. Esses não são auto–iniciados, são auto-iludidos. O mesmo se aplica às pessoas que romantizam e simplificam a Wicca como uma “religião livre, em que basta amar a todos” (o que os americanos chamam de “fluffy bunny wiccans”), a mesclam com o cristianismo ou outras coisas que querem continuar praticando e não sabem as bases da religião. Enfim a esses desejo, que um dia acordem, ao invés de auto-celebrarem a perpetuação de sua ignorância.
E quanto demora todo esse estudo e aprendizado sério para alguém poder se iniciar em coven ou se auto-iniciar?

Varia de pessoa para pessoa, mas sinceramente, cada mais me convenço que do estado de um leigo total para o da iminente iniciação a pessoa leva em média 3 anos. É um tempo bem razoável, embora alguns levem mais, poucos levem menos.

Iniciar-se mudará sua vida para sempre. Como diz minha irmã Naelyan Wyvern, enquanto você não faz seus votos sacerdotais, enquanto esta na dedicação, é como o tempo em que você esta subindo a escada de um tobogã. Você tem até o momento em que senta no tapetinho e dá o impulso para parar. Depois que você desce, não há mais como brecar o processo. Ou seja: se em algum momento de sua dedicação você achar que é demais para você, que não deseja uma vida de compromissos constantes, que quer algo mais light, então não se inicie. Seja pagão, curta seus rituais de vez em quando e seja feliz.

Mas se o sacerdócio é o desejo do seu coração, siga em frente, sabendo de tudo que o espera e lembrando que o rito iniciático é apenas o COMEÇO DE UM CAMINHO SEM VOLTA, onde a cada ano suas lições serão maiores e mais exigentes, mas as recompensas também. Uma vida de devoção, amor e Serviço à Deusa Tríplice e Seu Consorte.

Uma última observação: estes dias, escreveu na lista Templo da Deusa uma bruxa que diz que é praticante há diversos anos, mas nunca quis se auto-iniciar. Sobre isso, há uma observação a fazer: mesmo sendo feito da forma mais simples, sem pompa nenhuma, sem grandes cerimonias, o VOTO INICIÁTICO, OU SEJA, O MOMENTO EM QUE VOCÊ ENTREGA SUA VIDA AOS DEUSES EM SERVIÇO É ESSENCIAL. Essa é a principal finalidade do rito de iniciação: ser um marco do dia em que você fez, voluntariamente, esses votos. Os Deuses respeitam absolutamente nossa autonomia e nossa vontade, assim, SEM ESSES VOTOS ELES NÃO PODEM AGIR PLENAMENTE EM SUAS VIDAS E SEM ESSES VOTOS VOCÊ NÃO SERÁ UM INSTRUMENTO PLENO PARA ELES.

Esta é a real utilidade da auto-iniciação e da iniciação em covens: marcar o início da tomada dos votos sacerdotais na bruxaria, dar aos Deuses pleno domínio dos seus destinos, consentindo em que Eles o usem como instrumento desperto no mundo. Por tudo isso, recomendo a essa bruxa, que já há tantos anos vive no caminho que faça sim, sem medo e sem preconceito, sua auto-iniciação, porque ela levará seu sacerdócio a novos patamares.

É hora de parar de discutir bobagens e perfumaria. O que importa é: qual a qualidade do sacerdócio que estamos ofertando no altar dos Deuses?
A origem desse sacerdócio não pode ser fonte de discriminação, se ele for real.
Que os Antigos abençoem plenamente os que dançam juntos e os que dançam sós!

Mavesper Cy Ceridwen

Sou bruxa e sacerdotisa wiccaniana há mais de 22 anos, militante em defesa do Estado laico e direitos humanos. Terapeuta de cristais, taróloga, teáloga, terapeuta xamânica. Amo cães,especialmente poodles e pomeranians. Viciadíssima em seriados e , me aventurando na gastronomia.

Templo da Deusa

Sacerdócio Wiccaniano

Uma eterna polêmica entre os wiccanianos, seja no Brasil, seja em outras partes do mundo, é a velhíssima discussão sobre a validade ou não da auto-iniciação. Bons argumentos sobram tanto entre os defensores, como entre os críticos. A vivência na Wicca nos mostra que, muitas vezes, se encontra entre iniciados tradicionais pessoas que não se dedicam à Arte tanto quanto auto-iniciados, e entre auto-iniciados gente que só por muita ilusão se crê praticante da bruxaria.
Foto do Google
Creio, pois, que é hora de dar um passo a mais nessa discussão. A importância de iniciação tradicional é inegável, mas não há como fechar os olhos à realidade que, muito frequentemente, a auto-iniciação leva ao exercício de um sacerdócio impecável dos Deuses Antigos. O que é mais importante, então?

A resposta é justamente essa: o importante é o exercício do Sacerdócio Wiccaniano. Se chega a ele pela iniciação tradicional, participando de um coven, ok. Se chega a ele pelo árduo e difícil caminho de buscar as resposta diretamente da Deusa, pela auto-iniciação, ok também.
E o que é o Sacerdócio Wiccaniano?
Todos nós sabemos que só pertence realmente à Wicca quem se inicia ( seja em uma Tradição, seja pela auto-iniciação), ou seja, temos uma religião iniciática em que não há seguidores – todo wiccaniano é Sacerdote ou Sacerdotisa da Deusa Tríplice e seu Consorte.

Esse é um dos mais importantes diferenciais da Wicca em relação a caminhos mágicos não religiosos. O sacerdócio obrigatório implica que seja necessário à pessoa buscar em si, antes de pensar em trilhar este caminho, a veracidade de sua vocação sacerdotal. Costumo dizer que, na prática, nenhuma diferença vejo na vocação sacerdotal de um Wiccaniano da vocação sacerdotal para qualquer outra religião. Embora o modo de exercer nosso Sacerdócio da Terra não implique renúncias a prazeres, celibatos ou votos de pobreza ou abstinência, temos em comum com sacerdotes de outras religiões o seguinte: nossa alma anseia pelo contato íntimo e direto com a Divindade Criadora e nos oferecemos, voluntariamente, para realizar, em concreto, esse contato no mundo, em nossas vidas diárias.

Muitos livros tratam do período de preparação para a iniciação, muitos enfatizam o que deve um neófito aprender e conhecer no período de um ano e um dia mínimo para nela chegar. O que se deixa de comentar é o seguinte: o que faz uma bruxa DEPOIS da iniciação? Como é o exercício do Sacerdócio Wiccaniano?

Para responder essa pergunta, devemos compreender uma face da Deusa que é Aquela que Dá Poderes. Essa face da Deusa significa a Deusa agindo diretamente no mundo. Seja como a Curadora, seja como Consoladora, seja como Sábia, essa face da Deusa é muito conhecida das pessoas não tanto em tese, mas nas vivências diárias. É Ela quem nos concede nossos dons e quem, quando estamos em estreita comunhão com o Elemento Espírito, acende em nós a chama de partilhar esses dons. Creio que todos, mesmo os leigos, podem entender o que digo: quando você ouve uma bela música, quando lê um lindo poema ou vê um por do sol de intensa beleza, acende-se em seu coração um desejo de partilhar- você passa a querer dividir com os outros a beleza que descobriu.

Assim é o caminho Wiccaniano, essa mesma é a essência do sacerdócio: levar para a vida de outras pessoas a beleza que você descobriu ao perceber que a Vida é mágica, que Tudo é sagrado, que Ela é a Vida em si. A consciência de que tudo que existe em sua vida é sua responsabilidade e pode ser moldado por sua vontade. Descobrir que todas as respostas que você procura estão dentro de você mesmo. Obviamente isso não se faz por meio de pregações religiosas, nem por proselitismo. Isso se faz vivendo o dia a dia normal que todo Sacerdote ou Sacerdotisa Wiccaniano tem. Exercer o sacerdócio da Deusa Tríplice é levar encanto e magia a todos, e tornar as pessoas mais despertas , mais conscientes e mais livres, independentemente de que religião elas mesmas professem.

Ser um Sacerdote ou Sacerdotisa dos Antigos significa viver em alegria, celebrar a natureza e realizar seus dons no mundo. Seja nas pequenas coisas, como abençoar a pessoa que serviu a você um café no escritório ou nas coisas mais complexas, como engajar-se em movimentos ambientalistas, seja no usar seus dons para curar alguém ou um animal ferido, seja celebrando rituais públicos ou particulares, seja dando entrevistas na TV ou respondendo a um estranho sobre sua religião – tudo isso são formas possíveis de realização do caminho sacerdotal. Talvez você não deseje ser um@ curador@, ou talvez nunca sinta o impulso de ensinar ou falar sobre a Arte, mas se você descobrir o que a Deusa espera de você e realizá-lo, exercendo seus dons, você será um@ verdadeir@ Sacerdotisa ou Sacerdote Wiccanian@.

Um cuidado muito grande que se deve ter é com a ilusão de estar seguindo um caminho sacerdotal. Ouço muita gente dizer: “Eu vivo consciente da natureza, vejo a Deusa em tudo, e isso basta para me fazer wiccaniana.” Tolice: um caminho sacerdotal não é um fingimento, uma fantasia, tampouco é simples como “ver a Deusa em tudo”. Implica estudo, dedicação e vivência. Implica autoconhecimento e autotransformação.
Como vai seu Sacerdócio? Como você tem utilizado no mundo os Poderes Dela? Muito mais do que se preocupar com a forma da iniciação, esta deve ser a preocupação de todos nós wiccanianos: a qualidade do exercício do Sacerdócio.
Aos novatos deixo a pergunta: você tem real vocação sacerdotal? Como crê irá exercer o sacerdócio da Deusa e Seu Consorte em concreto na sua vida?

Somente Aquela Que Dá Poderes nos transforma em reais Sacerdotisas e Sacerdotes, fazendo com que nossa prática da Wicca deixe de ser algo formal e livresco, concretizando de maneira ativa os preceitos de nossa religião em nossas vidas, trazendo a magia a atuar no mundo.
Bençãos Brilhantes!

Mavesper Cy Ceridwen

Sou bruxa e sacerdotisa wiccaniana há mais de 22 anos, militante em defesa do Estado laico e direitos humanos. Terapeuta de cristais, taróloga, teáloga, terapeuta xamânica. Amo cães,especialmente poodles e pomeranians. Viciadíssima em seriados e , me aventurando na gastronomia.

Templo da Deusa